TRENS DE ‘DOIDOS’

Este é mais um poema para conscientizar sobre a Campanha Janeiro Branco. Em Minas Gerais, tudo é ‘trem’, e, quando este ‘trem’, representa algo extraordinário, então é um ‘trem de doido’. Alguns dizem que esta expressão foi criada pelos moradores de Barbacena, na primeira metade do Séc. XX, pois, ao verem chegar os trens na estação, diziam: ‘tá chegando mais um trem de doido’. Outros dizem ser de Guimarães Rosa. Segundo esta versão, o escritor ainda menino, ao ver de sua casa, partir os trens da estação em Cordisburgo, com pessoas para tratamento em Barbacena, se referia ao trem como ‘um trem de doido’, por ser uma viagem que não tinha volta…

Encenadas em Barbacena,

Nos Hospitais Colônias,

Cenas reais, insanas,

Desumanas, inumanas…

Nos trilhos do ‘progresso’

Os trens de ferro

Chegavam entre as Serras,

Em nome da ‘ordem’,

Empilhados de doidos’

Que supostamente faziam desordem…

Os trens de doidos’,

Com seus apitos ao longe,

Denunciavam ainda distantes

O silêncio das autoridades covardes…

O barulho dos apitos,

Os rastros da fumaça, numa mistura

Com a neblina das serras obscuras,

Ocultavam os gritos de pessoas mudas,

Levadas à força e sob tortura

Para o tratamento e aumento da loucura…

Aqueles trens com seus apitos,

Talvez quisessem dizer aos gritos,

Que o silêncio dos doidos’, aturdidos,

Era repúdio àqueles diagnósticos estúpidos…

Quantos trens entupidos,

De pessoas tratadas pior que bichos…

Mulheres abandonadas por seus maridos,

Homossexuais condenados por seus ‘extravios’,

Prostitutas, negros, considerados bandidos,

Muitas vezes apenas por serem tímidos…

Após este holocausto,

Realizado por racionais injustos,

Que os trens tragam de volta a esperança

E a razão sobreponha à verdadeira loucura humana’

ESTEVAMATIAZZI

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11 comentários em “TRENS DE ‘DOIDOS’

  1. “Para tratamento e o aumento da loucura”… hoje temos muitos “trens” sem trilhos por aí…
    Nesse poema você trouxe uma raiz histórica com um apito de “acorde”.
    Uma realidade que quem vivencia de perto pode falar com propriedade. Aqui falou com alma.
    Muito bom salientar sobre essa campanha do Janeiro Branco, a saúde mental é assunto para todas estações.
    Até mais 🙋🏽‍♀️

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    1. Obrigado Cris pelo seu retorno.. quando tiver tempo leia o meu soneto janeiro branco e visite o Psico.online Blog.
      No início de janeiro visitei uma clínica (chamada Sítio Cecília Meirelles) em Barbacena. Esta clínica está situada há menos de 3 km da casa onde morei entre os 6 e 10 anos de idade… a casa não existe mais, mas, os pesadelos e medo das pessoas que se tratavam na clínica permanecem vivos em meu inconsciente… ainda escreverei sobre o assunto…

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      1. Bom dia Estevam, li seu poema no início do mês e reli agora. Não tinha entrado no site JaneiroBranco, o que também fiz agora e é muito agregador, vou aprofundar mais a leitura por lá. Já estou na espera do post sobre a clínica. Se não for pedir muito, sugiro fotos de Barbacena. Abraços e até mais.

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        1. Obrigado Cris pelo retorno sempre atencioso e cuidadoso. Quando eu for a Barbacena, novamente, vou tentar tirar um tempo para algumas fotos… família é grande e se eu lhe contar como é a demanda, quando de minha presença, por mim e pelo carro, dirás que é um ‘trem de doido’ rsrsrsrs

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          1. Trem doido Matiazzi e c&a, risos.
            Abraços.

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            1. Junta pai, mãe, sobrinho/as, irmãos/ãs… todos/as querem ir a algum lugar… como em geral, fico uns dois ou três dia, então, o tempo fica curto…

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  2. Olha eu aqui outra vez☺
    Pode lhe interessar
    https://wp.me/p745Fe-82p

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    1. Obrigado Cris. Li os textos e comentei por lá. Escritos que transpiram alma e inspiram à reflexão.

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    2. Por aqui Cris, o ministro da saúde. quer ‘ressuscitar’ os manicômios… é cada coisa que temos ouvido dos ministros do novo governo, que parece cosia de ‘doido’.

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  3. Guimarães Rosa foi médico aqui em Barbacena, morou na Rua Quinze. Depois, abandonou a medicina e foi ser viajante dos sertões, antes de ser viajante do mundo. Trem de doido, estação dos doidos, colônia são chagas que nunca mais se fecharam em quem nasceu, cresceu ou simplesmente vive aqui. Bonito poema.

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    1. Cara acabei de me tornar seguidor de seu blog. Tu és de Barbacena?

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